Musics....

domingo, 19 de setembro de 2010

AS FRONTEIRAS DO AMOR

As fronteiras do amor
(Caris Garcia)

Naquela manhã o raio de sol era sublime
ao redor, um oceano de coloridas flores
o universo inteiro pertencia ao mesmo time
exalava primavera em todos os arredores

Pássaros azuis se divertiam no galho farto
Era a manhã que nascera quase perfeita
as grutas, montanhas e árvores, nosso quarto
Em todas as estações, era farta a colheita

Um dia que o mundo sorria para todos
eu corria descalça pelos campos floridos
testemunhando o nascimento de vários brotos
Feliz pelos cestos sempre abastecidos...

Sedenta de sentir a terra me invadir
e ser parte daquela natureza perfeita
o amor nascera em mim ao vê-lo sorrir
e ao seu lado não havia esquerda nem direita

Transformou-me como ninguém havia feito
completou-me tal, que dentro de mim não cabia
Coração puro entregando-se ao amor perfeito
enamorados inocentes, brincando dia após dia

No alto das colinas o mirei chegando
a felicidade se irradiava em meu peito
mas pela modo como seu olhar era desfeito
Uma pontada e o medo se multiplicando...

Você correu para mim e me abraçou forte
Como se fosse a última vez que o faria
A carta de convocação da guerra, o passaporte
Algum setor militar, escrito artilharia...

Antes de partir, uma jóia lhe entreguei
um broche antigo, na família estava há gerações
Gravado nele "da doce rainha para seu único rei"
"Volta para mim !" Foram minhas recomendações...

Infelizmente mais tarde a sina se cumpriria...
Perdidos olhares atravessando os tempos e as fronteiras...
A Guerra nos separara. O guri ficou sem a sua guria...
E os inimigos invadiram a terra, perdoando só a videira...

Invadiram nossa casa, e nela fizeram moradia
Sob a mira do inimigo, me puseram a lhes servir
Atos e gestos de intensa e agonizante covardia
Mas nada eu sentia, era impossível minh'alma agredir

Mesmo que a dor de sua ausência fosse elevada o suficiente
Todas as madrugadas, antes mesmo do sol despertar
eu corria para a colina e enviava-lhe o amor sobrevivente
Na esperança que algum dia, você, para mim pudesse voltar...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Postulado da tristeza

Postulado da tristeza
(Caris Garcia)

Envolve tudo e nada ao mesmo tempo
Algo que engloba a vida como um todo....
O sopro deveras fosse turbulento
a estrada, quem dera fosse lodo...

Junta todos os amores não vividos
e as paixões que faltaram coragem...
A melancolia de um choro já banido
Talvez tão denso quanto à própria bagagem...

Como tantas outras, sempre a mais pesada
Até as pétalas desmaiam com algo tão forte
Roubam da sabedoria a tristeza na alma soldada
Não se viu ainda dor assim, neste porte...

Gotas do próprio sumo do abatimento
um poder com maior autenticidade
Narrar, da infelicidade, o testamento
e quebrar os tabus da barbaridade

Na exploração deste enredo sem precedentes
Descarrega-se a morte dos sonhos adocicados
de lugares saudosos jamais visitados
em uma estagnação deveras ascendente

Das ruelas de outrora sente-se até o cheiro
o barulho antigo que no local circundava
lembranças remotas da vida do barqueiro
que na areia movediça seu azar ainda cava

De tão abstratas brotam concretas percepções
que declamam um amaldiçoado vazio interno
Que massacram os momentos de privações
quase um abraço ao precipício tão fraterno

Música perturbada, das almas e seus lamentos
A calma e a frieza da luz ali enterrada
Apenas o olhar que perdeu o seu sustento
A certeza que o brilho perdeu-se da estrada

A tesoura rente na corda bamba de ais
é a tristeza da descrença de um jamais...
Quiçá para valorizar a tal da alegria
Ou para a mente recordá-la de noite e de dia

indescritível a falta de força deste desânimo
Tal qual um leão se recolhendo em sua cova,
pressentindo o último sono magnânimo
traria o peso da saudade como prova


No oceano da alma se oculta a caixa preta
que não desenha marcos, nem mais caminha
Recolhida suas asas cinza, outrora borboleta
a estaca em seu peito, sua fada madrinha

Exaustivo até tentar aqui descrever
o que o passado ensina sobre esta guerra...
aprende-se a vencer as batalhas do mundo
menos a própria, que a aflição encerra...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

MINUTO DA FELICIDADE

Minuto da Felicidade
(Caris Garcia)

Às vezes a felicidade viaja como uma brisa
perdendo-se em janelas e portas abstratas
marcando as suas evoluções de marota baliza
com o sangue destemido de um antigo pirata

E mais uma vez nos encanta e nos conduz
em mundos tão desconhecidos, tão surreais
Revela-se à todos e a ela ninguém faz jus
deixa em cada vírgula a sentença dos imortais

Embora desapareça, assim que os olhos se abrem...
e tenha plena consciência de todo o processo...
Acumula e distribui sua particular aprendizagem
deixa todo o certo no caos do rés avesso

Mesmo que depois nos abandone sutilmente...
Difícil resistir...Afundamos em sua caravela
Com o sorriso no rosto e a juventude veemente
Nada lhe pertence, e tudo faz parte dela...

Na escuridão do oceano suas lágrimas aparecem
De tanto contê-las, se misturam em águas e sais
Restando, só, viver... Mesmo sem menos ou mais...
em estradas geométricas rodeadas por baixa voltagem...

Lá desaparece a noção de certo e errado...
E a razão não faz mais sentido algum...
Como companhia só o fiel cavalo alado
a soma é sempre zero e o infinito um...

Tão divertido quanto misticamente poético
o sentimento simples deixa de existir...
Para o mundo, um olhar permanente e cético
Nada lhe devolve seu único e doce elixir...

Permanece apenas o vazio da morte em vida...
E Então a tristeza acampa em entranhas ocultas
A mente é deixada à mercê de seu abraço homicida
Anjo e demônio em exaustiva e eterna disputa